pantanal, Pescoço e pescaria
relato de uma escritora numa excursão de pesca
Quando meu marido veio com a história de passar quatro dias hospedados em um barco-hotel no meio do pantanal, navegando pelo Rio Paraguai e pescando o dia inteiro, eu soltei uma risadinha de chacota. Do tipo que se solta quando alguém te faz um convite que, com bastante obviedade, não tem nada a ver com você.
Acontece que logo em seguida meus sogros me prometeram uma embarcação com acesso à internet, ar-condicionado, quarto arrumadinho e até sala de cinema, então aceitei a aventura, conformada em passar os dias lendo no conforto do barco enquanto o resto da família se submetia ao vento na cara, ao fedor dos peixes e às picadas dos mosquitos.
Depois de um voo direto para Campo Grande, percorremos de carro os 400 km até Corumbá, onde enfim embarcamos. Ao percorrer o deck e depositar nossas malas na cabine me senti transportada no tempo. A madeira dos móveis, o art déco das áreas comuns, o confinamento luxuoso com desconhecidos, tudo ao redor contribuiu para que me sentisse num livro da Agatha Christie.
Passei os olhos pela tripulação e pelos hóspedes, fui especulando quem seria a vítima, qual a arma do crime, e quais os suspeitos, suas motivações, e também, é claro, quem assumiria o papel do detetive excêntrico que desvendaria o assassinato. Com um pé naquela realidade dupla que eu inventava, comecei a desconfiar que talvez a viagem pudesse ser divertida para mim.
Fiquei animada o suficiente para me aventurar no rio. A cada dupla é designado um guia de apelido peculiar, responsável por dirigir a lancha de alumínio, apontar os melhores locais para pesca e nos devolver em segurança ao final do dia. O nosso era o Pescoço. Um homem de cerca de quarenta anos, careca e atarracado.
Já no início da nossa aventura vi dois homens descendo de uma canoa de madeira, na beira do rio, indo em direção à mata fechada, e escutamos então o estalido de um tiro. Dei um pulo de susto, e o Pescoço riu, explicou que era tiro ao alto, “só pra assustar onça, caso alguma esteja de bote montado no matagal, é que se pega mata mesmo”.
O Antônio é bom em fazer as pessoas desatarem a fala, e o nosso piloto rápido mostrou que adorava ser perguntado, em dez minutos a gente já sabia que ele chora ouvindo modão, e que o pai tinha sido coureiro, caçador de jacaré, dos anos 70 até os anos 90, coisa proibida já naquela época. A polícia ficava em cima e ele precisou fugir com a família, o Pescoço tinha seis anos quando o pai botou fogo na casa em que eles moravam, pra polícia não achar vestígio, e fugiram pelo rio, foram parar em Corumbá, onde o velho virou pescador profissional.
Nosso guia contou ainda que está no segundo casamento, teve o primeiro filho aos 19, e tem ainda uma pequena de dois anos, Maria Íris. Em temporada de pesca chega a ficar o mês sem pisar na terra, e às vezes dá tempo de passar só quatro horas em casa antes de subir de novo no barco. Toda vez que volta a sua menina já é outra menina, os bebês são bebês por muito pouco tempo, vão virando outros bebês, mudam.
Depois da terceira piranha pescada (e devidamente devolvida ao rio), eu – que sou uma grande neurótica - perguntei ao Pescoço se aquilo não era perigoso, a gente num barquinho bem em cima daquele tanto de peixe carnívoro, vai que eu me desequilibrava e caía e vinha logo um cardume inteiro e me jantava, como no filme das piranha.
Pescoço riu, e foi logo me tranquilizando: não, não, piranha não pega assim não, só se a pessoa ficar se debatendo na água, aí elas aparecem, porque são muito curiosas, e basta uma dar uma relada, só um sanguezinho na água e elas vêm mesmo, daí acabam com tudo, sobra só a ossada do caboclo. Me encolhi um pouco pra dentro do barco.
De um lado do rio estava o Brasil, do outro a Bolívia. Nas margens quase que tudo vegetação, mas de vez em quando também fazendas, casebres, cavalos pastando com calma. Escutamos ainda o motor de um avião, e o Pescoço explicou que era tráfico, me encolhi ainda mais pra dentro do barco, e ele tentou esconder o tanto que achou graça daquilo.
Quando o Antônio pegou o primeiro peixe grande, passou a vara pra eu puxar. Eu gritava e empinava o corpo pra trás e recolhia a linha ao mesmo tempo em que me sentia culpada de estar fisgando o pobre do peixe, torcia e não torcia pra ele se soltar, até que finalmente despontou da água o corpo graúdo, se debatendo enquanto o Pescoço desenroscava o anzol, click, a foto, e lá se foi muito ofendido o bicho de novo pra sua casa.
Esse embate me fez lembrar um dos meus livros favoritos, e contei para o Pescoço a epopeia, o velho pescador há oitenta e quatro dias sem pegar peixe, a fome e a pobreza, e ele indo sozinho mais longe que nunca, enfim fisgando o maior dos peixes, a luta, as noites, o respeito à força do adversário e o corpo abatido agarrado ao barco, vencedor, o homem destruído mas nunca derrotado. O Pescoço foi gostando da história, disse que também sabia o que era isso, honrar o bicho que dá sua carne para a barriga da gente, e se revoltou quando eu cheguei na parte dos tubarões, o pescador o caminho de volta inteiro tentando defender o corpo do peixe, já quase um amigo, a injustiça de matar a criatura e mesmo assim perdê-la para a natureza, voltar pra casa apenas com a carcaça e a fome de antes.
Em troca, ele nos narrou uma das suas histórias, mas fez questão de avisar que a dele era verdadeira. Falou do Minhocão, um peixe enorme que mora ali no rio mesmo, aparece só em noite escura, sem lua, e bate o seu corpão contra as canoas até derrubar o pescador, suga pra dentro da bocona sem dentes um homem adulto inteiro numa só tacada. Ele mesmo nunca viu, os antigos é que contam.
Essa história empolgou o Antônio, que quis saber quais outros causos do rio nosso amigo conhecia. Ouvimos então sobre a “dama d’água”, uma mulher bonita de branco que chama os homens na noite, e os “negrinhos d’água”, protetores do rio, metade menino e metade peixe, muito levados, pulam em cima dos homens, furam as redes e entortam os anzóis.
Nessa hora a gente estava atracado com o resto da trupe na beira do rio, fritando para o almoço os peixes pescados na manhã, e os outros guias confirmaram a história. Um deles, o Marreco, jurou de pé junto que quando criança viu um negrinho d’água dando gargalhadas enquanto tombava um barco de pescador.
Mas nem todos os causos foram folclóricos, um dos guias nos contou que perdeu naquele mesmo rio um sobrinho, criança pequena, caiu na água e a correnteza levou, não deu tempo de fazer nada, e por dias a família temeu que o Minhocão tivesse comido, que não houvesse sobrado nada para enterrar, mas eis que enfim no sétimo dia o corpinho boiou, e o menino foi guardado debaixo da terra.
Além de histórias, pesquei também avistamentos, vi um jacaré rodeando os barcos durante o almoço, como se um cachorro pedindo restos de comida, e três ariranhas, as cabeças curiosas pra fora do rio, olhando a gente e emitindo um som único, engraçado. Numa ilha larga cheia de pontinhos brancos especulamos a quantidade de garças, eu disse 600, o Antônio chutou 400, e quando o Pescoço fez barulho com o motor do barco elas voaram alto, e não paravam de sair garças de entre as árvores, os pontos brancos se multiplicando no verde, se escondendo no claro das nuvens, mais de mil!
Faltam ainda dois dias de aventura no Rio Paraguai, e constatei que não sou mesmo uma pescadora de peixes. Mas gosto de pescar histórias, e personagens. Eu, narradora, passei os dias abrindo os ouvidos, recebendo as imagens pela boca de gente daqui, coletando a fantasia e a tragédia e a beleza de pisar em um mundo que não é meu.
Pensando por esse lado, talvez eu tenha sido a maior pescadora do Kayamã.
Lembrete: Durou um momento, não teve fim, meu primeiro livro, segue em pré-venda no site da Todavia e na lojinha do careca.
Apoiem a escritora estreante, encomendem o bonito. <3
Vai que cê não leu ainda:
respirando o quase-livro - a suspensão que é a espera do livro (a fisicalidade da coisa escrita)
publicar também é nascer - a coisa toda de publicar o primeiro livro
pitacos de uma autora estreante - processo de escrita, agências literárias e publicação



relato lindo e vívido!
O Pantanal sempre nos presenteia com essas narrativas em correnteza. Coisa linda, Gabriela! Ansiosa pra ler teu livro <3